Mas hoje eu senti saudade...
Crônica
Por Stephani Cardozo (2ª Série B)

Hoje acordei com algo me cutucando, abri meus olhos e a sensação de que algo estava muito errado era nítida. Processei por cinco segundos que havia acabado de acordar e senti falta. Senti falta da minha mãe me chamando com sua doce voz, dizendo que eu deveria me levantar para não me atrasar.
Fui ao banheiro, troquei de roupa, lavei a cara, escovei os dentes, e a escova que roçava meus dentes era a mesma que me incomodava. Algo estava muito errado. Então senti falta. Senti falta da minha mãe colocando a roupa em mim enquanto eu resmungava de sono e dela me forçando a ter higiene bucal.
Meu coração estava calejado. Algo estava muito errado.
Decidi tomar café, preparei uma xícara de leite com chocolate e peguei um pedaço de bolo. Resolvi ir à sala e ligar a televisão, que transmitia o jornal diário. E senti falta.
Senti falta de estar assistindo a desenho animado, deitada, tomando leite com chocolate na mamadeira.
O dia passou devagar demais no trabalho. Algo estava muito errado. Abri as portas depois de me despedir de todos e acabei sentindo falta. Senti falta da escola e de sair correndo, porque sabia que minha mãe estava lá para me buscar.
Mas agora eu tinha o meu carro e eu iria me levar embora.
De repente, então, percebi o que estava errado, e muito errado: hoje eu acordei com a saudade.
Com saudade de poder rir de qualquer coisa boba, com saudade de brincar de ser super-heroína e salvar o mundo, com saudade de brincar de massinha de modelar, com saudade de aprender a ler, com saudade de caber no colo do meu avô, com saudade de passar a tarde com meu primo, com saudade da escola, saudade dos meus amigos, saudade das minhas amigas, saudade dos desentendimentos, saudade de ir à igreja com minha avó, saudade de cair e ralar o joelho, saudade de crescer e perceber que, infelizmente, as coisas mudam.
A verdade dura e real é que mentem para todos nós: não existem adultos. Existem crianças que cresceram e tiveram que aprender a reprimir suas emoções e descobertas para caber em um mundo que outras crianças reprimidas criaram.
Deve ser por isso que perguntam: “O que você quer ser quando crescer?” e não “O que você quer ser quando for adulto?”, até porque adulto é a denominação daquele que tem mais de 18 anos, mas continua com sua criança interior.
A verdade é que estou com saudade daquilo que um dia já fui e nunca mais vou conseguir ser de novo. E como isso é possível, se eu sou a mesma pessoa durante toda a minha vida?
“A saudade é o azar de quem teve muita sorte.”





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